O texto a seguir foi extraido do livro Lendas Brasileiras do  folclorista brasileiro Luiz da  CAMARA CASCUDO.

 

 

 

Com destino ao mar Pacífico, tomaram o vento do porto de San Lucas de Barrameda,na Andaluzia,em dias de setembro de 1534,duas nau castelhanas tripuladas por 250 marinheiros,soldados e colonos. Destes, não poucos nobres. Dirigia a jornada Dom Simão de Alcaçovas e Soutomaior,fidalgo português a serviço de Carlos V. A expedição tinha por fim explorar e povoar duzentas léguas de costa, desde o povoado de Chincha até o estreito de Magalhães, ao sul do vasto e riquíssimo império que Francisco Pizarro acabava de conquistar para a Espanha, e doadas ao dito Alcaçovas pela imperatriz Isabel, com o título de Província de Novo Leão.  

Tendo navegado em mui curta extensão o estreito, tão trabalhosa e arriscada se lhe prefigurou a travessia, tais dificuldades teve de enfrentar desde logo, que se viu forçado a retroceder, procurando abrigo na ilha dos Lobos, onde sua gente revoltada o assassinou.

Tomou a direção da esquadrilha um Juan de Echearcaguana, que fez degolar os capitães das naves, pondo em seguida a capa sobre o Norte, em busca de São João de Porto Rico, no mar dos Caraíbas. Após haverem navegado em conserva durante dois dias, os baixéis perderam-se de vista.

Viajava aquele em que tremulara a insígnia do desditoso Alcaçovas ( a nau chamada "Madre de Dios") , sempre amarrado ao litoral e ao atingir a altura de Boipeba, revoltou-se ainda uma vez a tripulação, encalhando-o num recanto da costa da ilha, que até hoje guarda, por isso, o nome de ponta dos Castelhanos.

Foi no dia do Apóstolo São Tiago, 1 de maio de 1535.(em nota posterior o autor retifica essa data para entre julho e agosto de 1535).

Metendo-se nos botes e numa chalupa, os amotinados abandonaram a embarcação, em busca de terra, onde forma amistosamente recebidos pelos índios tupinambás. Ao fim, porém, de breves dias, pilhando-os desprecatados, chacinaram-nos sem piedade.Poucos dos castelhanos escaparam à sangueira.    

A outra nave, denominada "San Pedro", governada pelo piloto Juan de Mori, veio jornadeando igualmente sem perder a costa do horizonte. Fome e enfermidade flagelaram-lhe a tripulação, que de novo se revoltaria se, em tempo, o capitão não metesse nos ferros os mais salientes.

Cinqüenta dias eram passados que sobre o mar corria a nau, quando entrou nas águas da baía de Todos os Santos, onde os mareantes toparam Diogo Álvares,Caramuru, em companhia de nove homens brancos, vivendo pacificamente entre os índios comarcãos.

Pouco depois chegou ao porto a chalupa do navio soçobrado em Boipeba, com dezessete sobreviventes da traição dos gentios, quase todos feridos de flecha, narrando quanto lhes acontecera, dizendo mais que possivelmente outros dos seus companheiros haveriam escapado à mortandade, refugiando-se em qualquer parte da ilha.

Atendendo às súplicas do Mori, dirigiu-se Diogo Álvares ao local sinistro, vinte léguas ao sul de sua aldeia, encontrado ali noventa cadáveres em putrefação e quatro homens milagrosamente poupados da fúria dos selvagens, embora feridos.

Somente a 18 de agosto, a "San Pedro" largou as velas em rumo da Península, tendo alguns tripulantes ou passageiros da malograda expedição ficado na terra com Caramuru, ao passo que dos companheiros deste alguns quiseram ir-se embora. Em troca de mantimentos que recebera de Diogo Álvares, largou-lhe Juan de Mori a chalupa e duas pipas de vinho. 

Um pormenor que define a intensidade do sentimento religioso entre os homens da época,sem,infelizmente torná-los menos cruéis: antes de partir, o capitão castelhano entendeu ser obra de misericórdia sondar a alma do voluntário exilado minhoto (Caramuru), submetendo-o a uma sabatina de catecismo. Nada havia esquecido, pois, diz um cronista : - "E falou-se-lhe em alguma cousa da Fé, e,ao que mostrou, estava bem nela".

Teve Diogo uma carta de agradecimento do grande imperador Carlos V - vai por conta de Rocha Pita e do Padre Simão de Vasconcelos - pelo socorro prestado aos náufragos de sangue azul.Que quanto aos plebeus, certamente, pouco importaria ao magnífico senhor de meio universo que levassem eles o capeta.

Eis o caso narrado com algumas divergências pelos historiadores.